Taxas de juro e o Fantasma da Inflação
- Maria Madalena Freire
- 29 de mai. de 2021
- 4 min de leitura
Foi no início deste ano que, após os mínimos históricos verificados nas taxas de juro da dívida na Europa e nos EUA, a pressão inflacionista - consequência das fortes politicas expansionistas lançadas pelos governos e bancos centrais como combate à crise – começou a ser um fantasma (ainda mais) presente nos mercados.
Texto de Catarina Neto

Com a pandemia, foram enormes os estímulos lançados pelos governos e bancos centrais no combate à crise. As taxas de juro atingiram mínimos históricos e Portugal - que beneficiava de um elevado número de compras de títulos de dívida pública - viu as suas taxas de juro da dívida a 10 anos caírem para valores negativos, em meados de Dezembro. O medo de uma subida descontrolada dos preços regressou ao debate económico e os economistas dividiram-se entre visões mais e menos cautelosas, mas os presidentes tentaram acalmar os nossos receios. Vamos tentar perceber de onde vem este medo, o que foi feito para o combater e como está o nosso Portugal.
Quando é que o medo da inflação se torna evidente?
Um português ou americano com 30 ou menos anos viveu sempre num mundo de preços controlados. Não que isso tenha eliminado este fantasma da nossa imaginação coletiva, mas a verdade é que uma grande parte da população nunca sentiu na carteira o peso da inflação. Aliás, a vasta maioria dos estudiosos ter-se-á apenas confrontado com o problema da armadilha de deflação e com o desespero dos imensos estímulos (convencionais e não convencionais) para o crescimento da economia e dos preços para os valores objetivo, por parte das autoridades.
É, então, no início de 2021 que assistimos a uma reversão desta tendência de diminuição das taxas de juro da divida no mercado, ao mesmo tempo em que se evidenciava a aprovação por parte da nova administração Biden de um plano de estímulo orçamental à economia de 1,9 biliões de dólares.
Assim, a subida das taxas de juro é explicada pela expectativa dos mercados de que, devido aos sinais de possível ressurgimento da inflação, os bancos centrais fossem forçados a recuar a sua política expansionista, recuando na manutenção das taxas de juro baixas.
O que sabemos é que, quer a nossa confiança no compromisso e capacidade das autoridades quer, como consequência disso, as expectativas que formulamos para o valor das variáveis objetivo (neste caso, o valor da inflação) no futuro são muito importantes para o comportamento dos preços.
Cientes disso e com o objetivo de acalmar os mercados obrigacionistas, para que o medo não se transformasse em comportamentos desestabilizadores por parte dos investidores, Jerome Powell (presidente da Reserva Federal) e Christine Lagarde (presidente do BCE) fizeram várias declarações onde se comprometiam a apoiar a recuperação económica, mostrando-se atentos à evolução e dando a entender que não iriam permitir aumentos das taxas.
As declarações de compromisso não foram suficientes?
Não, os investidores queriam sinais mais concretos.
Assim, no fim do 1º trimestre deste ano, na tentativa de contrariar esta subida das taxas de juro da dívida pública dos países da zona euro, que o BCE anuncia que as compras no âmbito do programa de compras de ativos devido à emergência pandémica (PEPP, em inglês) iriam ser conduzidos num ritmo mais acelerado no trimestre que se seguia comparativamente ao anterior, o que iria contribuir para travar esta tendência, ou até mesmo revertê-la.
Resultado do anúncio: a generalidade das taxas de juro da divida pública dos países da Zona Euro registaram uma descida acentuada MINUTOS a seguir ao comunicado.
(No caso de Portugal, a taxa encontrava-se em 0,234% à hora do comunicado e em 0,170% meia hora depois).
E para Portugal não vai nada nada nada? TUDO!!
Foi publicado na passada quinta-feira 20 de Maio o Relatório de Implementação da Política Monetária onde o Banco de Portugal apresenta o cumprimento da aplicação de Política Monetária à crise pandémica decidida pelo conselho de governadores do BCE, onde são expostas as medidas expansionistas postas em prática em Portugal.
O relatório destaca, particularmente, o reforço que foi feito nas compras de dívida pública portuguesa - nomeadamente as condições especiais do programa PEPP (anteriormente mencionado), que tem desempenhado um papel fundamental - e no alargamento dos empréstimos a taxas de juro fixas concedidos aos bancos centrais com o objetivo de terem acesso a toda a liquidez necessária para conceder empréstimos a empresas e particulares minimizando o impacto económico negativo, melhorando simultaneamente as condições oferecidas nesses empréstimos. No entanto, é importante salvaguardar que não significa que o aumento dos empréstimos concedidos pelos bancos seja tão forte como o financiamento recebido pelo banco central.
Estas medidas têm-se revelados fundamentais para manter as taxas de juro da dívida pública a níveis historicamente baixos. No caso de Portugal, que no início do ano se encontravam muito próximas de 0 (cerca de 0,026%), atualmente já se encontram acima de 0,55%. Contudo, esta subida, tal como foi objeto de análise ao longo do texto, regista-se na generalidade dos países da zona euro pelo que os diferenciais nos custos de financiamento entre os países não parecem, para já, alarmantes, uma vez que os diferenciais face às taxas de juro alemãs têm-se mantido estáveis.
Conclusão: muitos sinais alarmantes, bastantes pedidos de calma e confiança mas por mais previsões que façamos em economia temos mesmo de esperar para ver!
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